​Renda sobe e consumo se mantém aquecido

A capacidade de consumo do brasileiro, alvo de debate intenso nos últimos meses, dá sinais de estar longe do esgotamento. O comércio varejista ampliado continua a crescer em ritmo considerável, de 5,8% no acumulado de janeiro a maio, apesar do recuo de 0,8% das vendas de veículos e autopeças no período.

Esse desempenho ainda razoável se dá mesmo com a renda disponível do consumidor disputada por uma série de novas despesas, do financiamento imobiliário a vários serviços, como celular, TV a cabo, acesso à internet, educação, previdência privada e passagens aéreas.

Para alguns analistas, está em curso uma mudança no mix de consumo do brasileiro, que ainda tende a permanecer em crescimento robusto, amparado num cenário de desemprego baixíssimo, em que os salários ainda crescem com força - em maio, a renda nas seis principais regiões metropolitanas avançou 4,9% em relação a maio do ano anterior, já descontada a inflação, e os reajustes salariais obtidos pelos trabalhadores no primeiro semestre continuaram expressivos. Há sinais de piora no emprego na indústria, mas, pelo menos por enquanto, o cenário não é dos mais graves. O comprometimento de renda com o pagamento de dívidas aumentou e a inadimplência incomoda um pouco, mas não travou o consumo.

O economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, acha um erro a avaliação de que o consumo está decepcionando no Brasil. "O desemprego está nas mínimas históricas, houve aumento forte do salário mínimo e a confiança do consumidor segue em níveis elevados. O Brasil tem aquilo que quase todos os países não têm no momento: demanda de consumo."

Barros considera normal que haja um crescimento mais moderado das vendas de veículos nos próximos anos. Além de muitos consumidores já terem adquirido automóveis, também há um novo mix de consumo entre carros e imóveis, diz ele. Foi o que ocorreu no México, quando o crédito imobiliário aumentou com força, e também parece estar em curso no Brasil, com o ritmo de financiamento de automóveis avançando a um ritmo mais lento (ver tabela). O crédito imobiliário, que envolve valores mais elevados, é a dívida encarada com prioridade pelo consumidor, com inadimplência muito baixa, lembra Barros.

Por todos esses fatores, a expectativa dos analistas é que a retomada mais forte da economia continuará a ter no consumo o impulso mais importante. Enquanto o PIB deve crescer algo na casa de 2% ou menos, o consumo das famílias pode crescer ainda 4% ou mais.

Para Barros, "o consumo seguirá bem no Brasil, mas crescendo de forma mais moderada, em linha com a dinâmica da renda disponível, cada vez mais disputada pelo setor de serviços e pelo maior apetite por poupança da população".

Segundo ele, as famílias brasileiras ainda estão muito longe de poupar como os asiáticos, mas há um esforço maior para guardar dinheiro. Números da Sondagem de Expectativas do Consumidor da Fundação Getulio Vargas (FGV), quase um quarto - 24,9% - dos entrevistados estava poupando em junho. De 2005 para cá, a média é de 17,9%.

Fonte: Jornal Impresso - Valor Econômico [Sergio Lamucci]